Balançou.
Eu vi, ninguém em contou. Estava acordado batendo papo na cozinha com o Rodrigo e o Bartozs quando o prédio balançou. Depois chegaram o João e o Hugo assustados.
Nível, 6.3 na escala Richter. Epicentro 100 km a oeste-sudoeste do Cabo São Vicente. Os andares dos prédios mais altos chegaram a balançar por 10 segundos.
Em 1755 um terremoto devastou Lisboa. Em 2009 um sismo deixou o pessoal cagado.
Quem disse que viver aqui é só festa tá muito enganado.
Notícias aqui:
http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=401041
Sem danos materiais aparentes na cidade, mas me pergunto se este prédio velho passa por outro desses sem se comprometer. Hora de mudar de casa?
Contundente, não acham?
Postado por
Adriano Comissoli
Eu não tenho muita certeza sobre o andamento e a produtividade deste doutorado e muito menos sobre sua real importância para o mundo. Com frequência me pergunto se minha bolsa de pesquisa não é uma má distribuição de recursos públicos. Não sei se esta tese fará alguma diferença e o mais grave, não sei se ela é capaz de suplantar o meu próprio mestrado.
"Mas o cientista sempre tem dúvidas", acabou de dizer-me Bartosz, o estudante polonês que vive aqui em casa.
Eu nunca havia pensando sobre isso. Nunca havia avaliado a dúvida e a incerteza como componente necessário e indispensável ao meu trabalho. Há tantos anos me cobro por ter controle do meu trabalho (e de tudo dentro da minha vida) que esqueci que como cientista é minha obrigação duvidar das certezas. Talvez como ser humano seja essa também a minha tarefa.
Se tudo fosse certeza acho que não seria bom. Haveria muito menos opções e muito menos meios de mudar o que está errado.
Esse passado foi mesmo do jeito que dizem que foi? Duvido muito.
Postado por
Adriano Comissoli
Já é quase oficial.
Não tenho o menor interesse em voltar ao Brasil.
Somente minha obrigações contratuais me forçam ao retorno.
Devia ter pedido uma bolsa com mais tempo...
Depois de tanto trabalho pra conquistar Portugal por que eu quereria voltar?
Essa foto não tem nada a ver com o texto. Ela foi colocada aqui para testar meu potencial de comunicação via fotografia.
É bem simples. Lucía nos mostrava algumas de suas fotos no Facebook, incluindo algumas fotos da sua infância. Ao Rui chamou atenção uma foto dela em criança na qual, segundo ele, assemelhava-se à princesa Letícia de Espanha. Não deu outra, logo ele e eu começamos a comentar com todos que vivíamos com uma integrante da real família espanhola: Lucía, Infanta de Astúrias. O apelido pegou. Acho mesmo que ela curtiu muito.
Hoje Lucía pegou um vôo direto de Lisboa a Madri para voltar para a Espanha deixando saudades em todos que continuam a morar na nossa casa. Eu convivi com ela desde que aqui cheguei, cerca de um mês e meio. Tive sorte e agradeço por isso. Ela é uma pessoa muito rica, muito iluminada. Para mim personifica a alegria. Vou tentar lembrar sempre disso, da alegria e de como é possível ser alegre sempre. Hay que ser alegre siempre! No permitas que la alegria desaparezca de nuestras vidas, de nuestras calles, de nuestras escuelas!
Lucía e eu nos tratávamos (e ainda tratamos! Por Dios, nadie ha murrido!!) de “hermano mayor” e “hermancita”. Me afeiçoei a esta figurinha! Ela é por demais divertida! Impossível não simpatizar com ela. E dado que amo demais a minha irmã de sangue não vi outro modo que não considerar a Infanta de Asturias outra irmãzinha. Pode parecer confuso, mas é o meu jeito de fazer um grande elogio. Às duas!
Lucía sempre me supreendia com suas expressões idiomáticas hispânicas. Em meio aos seus “conõs”, “hostias”, “la virgen” e “joder” sempre se ouviam as minha risadas. A melhor de todas essas “putadas” foi quando resolvi um problema trivial, mas que parecia angustiar demais a pequena princesa. Admirada ela exclamou “Hostia, que putada! Por eso es el puto jefe!!”
El puto jefe...
O equivalente a ser um cara “fudido na base”. Taí... gostei.
Gostei até mais do que quando le ragazze italiane me alcunharam “l’imperatore”. Afinal acho que sou muito mais ao modo “puto jefe” que “imperatore”. Então agora éramos a Infanta e "el puto jefe". Tem a ver. Mais ainda se consideramos nosso bom gosto em usar chapéus.
No aeroporto eu percebi as caras tristes de todos e tomei uma decisão, que talvez tenha sido bastante idiota. Com tanta gente abatida pela separação decidi que seria melhor se oferecesse algum apoio. Hmm... Deveria eu também ter cedido. Não me faria mal derramar umas lágrimas. Mas eu tenho uns bloqueios. Coisa pra discutir outra hora. De todo o modo separamo-nos. Rui de longe é quem mais sentiu o golpe, afinal ele e a Infanta estavam envolvidos emocionalmente. Uma história bonita, mas que prefiro não contar. É a história deles. A minha é a história de como ganhei uma “hermancita”. E uma “hermancita” que me ensinou muito sobre cozinhar, sobre música, sobre divertir-se, sobre conduzir um carro auxiliado por um GPS temperamental e potencialmente homicida. Mas, sobretudo, sobre ser alegre.
Acho que a semana que se inicia vai ser pesada.
Começou a chover em Lisboa e a casa está mais silenciosa. Não escuto aquela risada tão gostosa quando passo pelo quarto 4 no corredor. Meu instinto me diz que as coisas vão mudar. No que tange à minha pessoa eu pretendo que elas mudem pra melhor. Vou me esforçar por isso. Pra ser mais alegre.
Depois de tudo o que minha nova irmã me ensinou não seria respeitoso com ela se eu não me decidisse a ser alegre.

