Super Bock é melhor do que Bohemia. O que dizer do resto das cervejas, então?
As azeitonas do Mercado Público de Porto Alegre são melhores que as do Pingo Doce, mas o chouriço da Sadia é muito inferior ao português.
Bacalhau cá é tão caro que provavelmente ficarei anos sem comer. Camarões também estão excluídos dos pratos do dia a dia.
Minhas facas de cozinha Tramontina cortam muito melhor que as Ikea da república. Mas eu achava que a minha frigideira era bem maior...
Os lençóis nas estantes cumpriram sua função. Não havia pó quando os retirei.
Uma vez eu fui pra Lisboa para estudar e pesquisar nos arquivos de lá. Como parte do meu doutorado. Se calhar foi por isso.
Aí conheci muita gente legal. Gostei muito. E quis ficar amigos deles e deu certo porque eles são muito legais e me deixaram ser amigo deles. Depois de um tempo, assim, a gente era como uma família, e pá! E era porreiro! Se calhar era do caraças!
E teve um dia que nós tomamos umas Super Bock, que é a cerveja de lá, pá. E é boa pra caraças!
E a gente se divertia muito e convivia numa boa e se respeitava e tinha carinho uns pelos outros e se ajudava quando podia e ficava triste por não poder ajudar quando não podia. Mas a gente era muito amigo. Se calhar ainda somos. Porque não é a distância que vai vencer tanta amizade, tanto carinho e tanto amor.
E tinha o João. Que falava muito e sempre em voz alta. E é bom sujeito e quem o ouve falar sempre de modo tão afoito não suspeita que ele possa produzir melodias tão calmas e suaves com sua guitarra e que elas sejam tão agradáveis. Ao João eu desejo que aprenda a dizer de modo tão suave as suas idéias poderosas porque nós que temos a mente menos dinâmica temos dificuldade de o acompanhar.
E tinha o Manito e a namorada dele, a Marisa. Eu convivi um pouco menos com eles dois, mas eles são gente muito boa e gosto deles porque são divertidos e trabalhadores. Eu desejo aos dois que continuem juntos e que logo possam ter um lugar só seu e que convidem os amigos para as jantaradas.
E tinha o Bartosz. Que foi o primeiro polaco que conheci e de certa forma o único. E ele é muito tímido e gosta de Quim Barreiros. O Quim faz música de duplo sentido. O Bartosz é um sujeito de duplo sentido. Ele pensa que é um menino que não consegue se tornar um homem, mas na verdade ele é um homem que consegue não abrir mão de ser menino. Ao Bartek eu desejo que tente mais vezes, porque tentando se descobre coisas novas e principalmente se descobre quem se é. Desejo que ele perca o medo de tentar.
E tinha o Rui. Parecia sempre sério. Até que de repente falava um absurdo inacreditável e então mostrava que a seriedade era só porque ele fica sempre muito tempo preocupado com o bem estar de todo mundo. Ao Rui eu desejo que pare de se preocupar tanto com todos e comece a se preocupar mais consigo mesmo. E que encontre um emprego melhor e que o satisfaça mais. De preferência numa cidade e países novos.
E havia a Lucía. Que era como uma irmã. Ou melhor, como uma "hermancita". E ela é pequenininha, mas como uma pessoa tão pequena e de braços curtos conseguia abraçar todos os amigos de uma única vez? Mas a Lucía consegue. A Lucía eu desejo que se mude a Madri e que encontre um trabalho com muitas frutas e escaravelhos e que nos intervalos assista concertos de rock e que junte dinheiro para trocar o "bala roja" por un "coche más moderno".
E havia o Rodrigo. Que era o meu "young padawan", mas que nunca aprendia nada do que eu ensinava. E acho que ele fazia bem, pois assim aprendia por si mesmo. Mas ao menos ele me deixava falar. E houve tempos em que ele achou que a solução dos problemas estava no fundo da garrafa e houve tempos em que ele achou que estava na cama. Ao Rodrigo eu desejo que encontre a solução do problemas dentro de si e que olhe o passado e agradeça e diga "eu não preciso mais de ti" para aquela pessoa que ele não precisa mais. Até porque nós precisamos dele.
E tinha a Marina. Que é italiana e muito divertida. Mas acho que pouca gente sabe que ela foi à Lisboa com um grande propósito. Eu acho que ela está no caminho certo. E está nele há mais tempo do que pensa. Eu nunca vou esquecer a Marina e agradeço todo o carinho e paciência que teve comigo, porque ela é especial. A Marina eu desejo que acredite em si mesma, pois assim ela não terá de trabalhar no banco. E desejo que um dia ela visite o Brasil e encontre tudo o que ela procura nele e se divirta imenso.
A Giulia é amiga da Marina desde antes delas irem de Roma a Lisboa estudar. A Giulia tem o par de olhos mais lindos da nossa turma de amigos e tem uma alma cândida e doce. E sorri e conversa com a gente numa boa. E ela fez algumas das melhores fotos do pessoal porque acho que ela tem a sensibilidade de registrar os momentos da maneira certa. Eu desejo a Giulia que tenha força para encarar os modernistas brasileiros e que saiba que o amor que leva é igual ao que se dá (já disseram os Beatles) e que nós a amamos na mesma proporção do imenso amor que ela tem por nós.
E o Zé era pra mim um grande amigo. Isso porque eu via no sofrimento dele a mesma situação ruim pela qual passei. E acho uma injustiça, pois ele não merece. O Zé é um cara franco e confiável e é um homem de longe do Equador. E eu sempre respeitei tudo o que ele me disse. Dever ser porque ele fala com um jeito calmo de quem não está interessado em provar que está certo, mas sim alertar quem está enganado. Ao Zé eu desejo que escute ele mesmo os seus conselhos e que só venha ao Brasil quando for a hora certa.
A esses amigos que formaram para mim uma família em Portugal eu desejo muita felicidade. Felicidade no singular que é aquela felicidade que perdura no dia a dia. Vocês são todos incríveis e por mais teimoso e irascível que eu seja eu posso garantir que vocês mudaram a minha vida.
Se calhar, pra sempre.
Postado por Adriano ComissoliBalançou.
Eu vi, ninguém em contou. Estava acordado batendo papo na cozinha com o Rodrigo e o Bartozs quando o prédio balançou. Depois chegaram o João e o Hugo assustados.
Nível, 6.3 na escala Richter. Epicentro 100 km a oeste-sudoeste do Cabo São Vicente. Os andares dos prédios mais altos chegaram a balançar por 10 segundos.
Em 1755 um terremoto devastou Lisboa. Em 2009 um sismo deixou o pessoal cagado.
Quem disse que viver aqui é só festa tá muito enganado.
Notícias aqui:
http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=401041
Sem danos materiais aparentes na cidade, mas me pergunto se este prédio velho passa por outro desses sem se comprometer. Hora de mudar de casa?
Contundente, não acham?
Postado por
Adriano Comissoli
Eu não tenho muita certeza sobre o andamento e a produtividade deste doutorado e muito menos sobre sua real importância para o mundo. Com frequência me pergunto se minha bolsa de pesquisa não é uma má distribuição de recursos públicos. Não sei se esta tese fará alguma diferença e o mais grave, não sei se ela é capaz de suplantar o meu próprio mestrado.
"Mas o cientista sempre tem dúvidas", acabou de dizer-me Bartosz, o estudante polonês que vive aqui em casa.
Eu nunca havia pensando sobre isso. Nunca havia avaliado a dúvida e a incerteza como componente necessário e indispensável ao meu trabalho. Há tantos anos me cobro por ter controle do meu trabalho (e de tudo dentro da minha vida) que esqueci que como cientista é minha obrigação duvidar das certezas. Talvez como ser humano seja essa também a minha tarefa.
Se tudo fosse certeza acho que não seria bom. Haveria muito menos opções e muito menos meios de mudar o que está errado.
Esse passado foi mesmo do jeito que dizem que foi? Duvido muito.
Postado por
Adriano Comissoli

