Readaptando

Super Bock é melhor do que Bohemia. O que dizer do resto das cervejas, então?

As azeitonas do Mercado Público de Porto Alegre são melhores que as do Pingo Doce, mas o chouriço da Sadia é muito inferior ao português.
Bacalhau cá é tão caro que provavelmente ficarei anos sem comer. Camarões também estão excluídos dos pratos do dia a dia.

Minhas facas de cozinha Tramontina cortam muito melhor que as Ikea da república. Mas eu achava que a minha frigideira era bem maior...

Home, home again

Os lençóis nas estantes cumpriram sua função. Não havia pó quando os retirei.

O apartamento não está sujo, embora tenha um pouco de pó depositado. Meu pai encomendou uma limpeza antes de eu chegar, mas demorei o suficiente para o meu cubo de concreto não estar impecável.
As malas eu abri na sala, mas não terminei de desfazer. Quero arrumar as coisas, mas para isso tenho de limpar aqui e ali, passar o aspirador de pó. Se quero tomar água tenho de lavar os copos primeiro. O mesmo vale para os pratos e talheres.
Nada disso me incomoda. O que me assusta é a ausência de vozes. Vozes amigas que estavam lá mesmo quando não se dirigiam a mim. Nunca me dei conta que elas me davam segurança. Agora existe um silêncio ao qual não estou acostumado. Descobri que gosto de gente. Ou melhor dizendo, gosto de pessoas específicas das quais agora sinto imensa saudade. Aqui em Porto Alegre a solidão e a falta que eles me fazem parece mais assustadora. Enquanto estive no Rio de Janeiro revendo amigos esse sentimento foi driblado. Mas agora está forte. E me assusta.
Se deixo de escrever por uns instantes e olho ao redor posso vê-los por aqui. Nesse apartamento onde nunca estiveram. Poderia mesmo descrever o que cada um está fazendo, mas não quero. Apenas fico curtindo a visita deles. Ou a companhia porque apesar de tudo eles estão aqui. Não estão longe. Isso é bom de pensar.
Essa noite vai ser longa, amigos. E essa semana vai ser de reorganizar as coisas. Conto com vocês pra me ajudar.
Como sempre.

Um história sobre... Lisboa

Lisboa é uma cidade, capital de Portugal.

Uma vez eu fui pra Lisboa para estudar e pesquisar nos arquivos de lá. Como parte do meu doutorado. Se calhar foi por isso.
Aí conheci muita gente legal. Gostei muito. E quis ficar amigos deles e deu certo porque eles são muito legais e me deixaram ser amigo deles. Depois de um tempo, assim, a gente era como uma família, e pá! E era porreiro! Se calhar era do caraças!

E teve um dia que nós tomamos umas Super Bock, que é a cerveja de lá, pá. E é boa pra caraças!
E a gente se divertia muito e convivia numa boa e se respeitava e tinha carinho uns pelos outros e se ajudava quando podia e ficava triste por não poder ajudar quando não podia. Mas a gente era muito amigo. Se calhar ainda somos. Porque não é a distância que vai vencer tanta amizade, tanto carinho e tanto amor.
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E tinha o João. Que falava muito e sempre em voz alta. E é bom sujeito e quem o ouve falar sempre de modo tão afoito não suspeita que ele possa produzir melodias tão calmas e suaves com sua guitarra e que elas sejam tão agradáveis. Ao João eu desejo que aprenda a dizer de modo tão suave as suas idéias poderosas porque nós que temos a mente menos dinâmica temos dificuldade de o acompanhar.

E tinha o Manito e a namorada dele, a Marisa. Eu convivi um pouco menos com eles dois, mas eles são gente muito boa e gosto deles porque são divertidos e trabalhadores. Eu desejo aos dois que continuem juntos e que logo possam ter um lugar só seu e que convidem os amigos para as jantaradas.

E tinha o Bartosz. Que foi o primeiro polaco que conheci e de certa forma o único. E ele é muito tímido e gosta de Quim Barreiros. O Quim faz música de duplo sentido. O Bartosz é um sujeito de duplo sentido. Ele pensa que é um menino que não consegue se tornar um homem, mas na verdade ele é um homem que consegue não abrir mão de ser menino. Ao Bartek eu desejo que tente mais vezes, porque tentando se descobre coisas novas e principalmente se descobre quem se é. Desejo que ele perca o medo de tentar.

E tinha o Rui. Parecia sempre sério. Até que de repente falava um absurdo inacreditável e então mostrava que a seriedade era só porque ele fica sempre muito tempo preocupado com o bem estar de todo mundo. Ao Rui eu desejo que pare de se preocupar tanto com todos e comece a se preocupar mais consigo mesmo. E que encontre um emprego melhor e que o satisfaça mais. De preferência numa cidade e países novos.

E havia a Lucía. Que era como uma irmã. Ou melhor, como uma "hermancita". E ela é pequenininha, mas como uma pessoa tão pequena e de braços curtos conseguia abraçar todos os amigos de uma única vez? Mas a Lucía consegue. A Lucía eu desejo que se mude a Madri e que encontre um trabalho com muitas frutas e escaravelhos e que nos intervalos assista concertos de rock e que junte dinheiro para trocar o "bala roja" por un "coche más moderno".

E havia o Rodrigo. Que era o meu "young padawan", mas que nunca aprendia nada do que eu ensinava. E acho que ele fazia bem, pois assim aprendia por si mesmo. Mas ao menos ele me deixava falar. E houve tempos em que ele achou que a solução dos problemas estava no fundo da garrafa e houve tempos em que ele achou que estava na cama. Ao Rodrigo eu desejo que encontre a solução do problemas dentro de si e que olhe o passado e agradeça e diga "eu não preciso mais de ti" para aquela pessoa que ele não precisa mais. Até porque nós precisamos dele.

E tinha a Marina. Que é italiana e muito divertida. Mas acho que pouca gente sabe que ela foi à Lisboa com um grande propósito. Eu acho que ela está no caminho certo. E está nele há mais tempo do que pensa. Eu nunca vou esquecer a Marina e agradeço todo o carinho e paciência que teve comigo, porque ela é especial. A Marina eu desejo que acredite em si mesma, pois assim ela não terá de trabalhar no banco. E desejo que um dia ela visite o Brasil e encontre tudo o que ela procura nele e se divirta imenso.

A Giulia é amiga da Marina desde antes delas irem de Roma a Lisboa estudar. A Giulia tem o par de olhos mais lindos da nossa turma de amigos e tem uma alma cândida e doce. E sorri e conversa com a gente numa boa. E ela fez algumas das melhores fotos do pessoal porque acho que ela tem a sensibilidade de registrar os momentos da maneira certa. Eu desejo a Giulia que tenha força para encarar os modernistas brasileiros e que saiba que o amor que leva é igual ao que se dá (já disseram os Beatles) e que nós a amamos na mesma proporção do imenso amor que ela tem por nós.

E o Zé era pra mim um grande amigo. Isso porque eu via no sofrimento dele a mesma situação ruim pela qual passei. E acho uma injustiça, pois ele não merece. O Zé é um cara franco e confiável e é um homem de longe do Equador. E eu sempre respeitei tudo o que ele me disse. Dever ser porque ele fala com um jeito calmo de quem não está interessado em provar que está certo, mas sim alertar quem está enganado. Ao Zé eu desejo que escute ele mesmo os seus conselhos e que só venha ao Brasil quando for a hora certa.

A esses amigos que formaram para mim uma família em Portugal eu desejo muita felicidade. Felicidade no singular que é aquela felicidade que perdura no dia a dia. Vocês são todos incríveis e por mais teimoso e irascível que eu seja eu posso garantir que vocês mudaram a minha vida.

Se calhar, pra sempre.

Sismo

Balançou.
Eu vi, ninguém em contou. Estava acordado batendo papo na cozinha com o Rodrigo e o Bartozs quando o prédio balançou. Depois chegaram o João e o Hugo assustados.

Nível, 6.3 na escala Richter. Epicentro 100 km a oeste-sudoeste do Cabo São Vicente. Os andares dos prédios mais altos chegaram a balançar por 10 segundos.

Em 1755 um terremoto devastou Lisboa. Em 2009 um sismo deixou o pessoal cagado.
Quem disse que viver aqui é só festa tá muito enganado.

Notícias aqui:
http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=401041

Sem danos materiais aparentes na cidade, mas me pergunto se este prédio velho passa por outro desses sem se comprometer. Hora de mudar de casa?

Faz algum tempo eu pensava em escrever um bonito e divertido texto sobre a casa onde vivo aqui em Lisboa. Algo na linha "Albergue espanhol", pois vivo numa residência com mais treze pessoas. Ou vivia, pois algumas deixaram a casa.
Agora me parece sem sentido tentar reproduzir a empolgação inicial das primeiras semanas. O tempo é um adversário implacável e como o seu progresso as gentilezas inicias escasseiam, os problemas multiplicam, os conflitos emergem e as relações desgastam. Ainda assim eu lembro de um tempo no qual eu me sentia acolhido por aquele clima de comunidade, de nova família que se forma. Aquele tempo ainda está lá e ainda estamos todos sorrindo em torno da mesa em nossos jantares coletivos.
As coisas estão diferentes agora. Eu já sei quais são as pessoas de quem sentirei mais saudade. Mas ainda gosto de todos. Não de todos os treze porque com alguns sequer falo e existem pelos menos quatro que fico dias sem ver. Isso não me incomoda. Podem até ser gente boa, mas não sinto sua ausência.
Acredito que o vídeo que a Lucía produziu após retornar para as Astúrias sintetizou o que eu pretendia expressar.
Aqui o vídeo. Que alguns podem achar piegas, mas esses já sabem que desejo que delicadamente tomem nos olhinhos de seus cus.



Talvez quem mais devesse olhar esse vídeo somos nós habitantes da republiqueta de Adília. Acho que temos de lembrar dos bons tempos que vivemos e do quanto fomos sinceros naqueles primeiros tempos. Eu sei que muitos andam sobrecarregados emocionalmente, fisicamente, mas acho que todos podemos botar o dedinho na moleira e repensar algumas de nossas ações.
Eu estou muito cansado e muito triste. Estou frustrado comigo mesmo. Não dei a atenção que meu trabalho merecia e necessitava. Me frustrei como sempre faço no campo emocional porque sigo sendo o mesmo bosta de sempre. E o que vou fazer amanhã? Vou levantar e resolver os problemas, um por um como sempre, do jeitinho que o meu pai tentou me ensinar a vida toda. é pra isso que eu sirvo. Sobreviver é a minha regra básica.
Mas o comandante Adama me ensinou que sobreviver não é suficiente. Que é necessário merecer.
Eu sou o mais velho aqui, vizinhos, e garanto que passei por mais aperto do que vocês. É hora de fazer merecer nossa sobrevivência. Comecem desacelerando, cuidando das coisas básicas. Precisamos cuidar da nossa casa, fazer o consumo de eletricidade baixar. Precisamos estudar pros exames ou trabalhar com maior cuidado em nossos empregos. Temos de ser mais delicados uns com os outros. Passamos tempos tempestuosos, mas a bonança não tarda agora. Melhor se aproveitarmos os bons tempos em conjunto.
Eu preciso ficar um tempo em silêncio. Cada momento em que eu estiver falando será mau sinal. Não se ressintam do meu silêncio, vocês podem sempre falar comigo. Mas se eu não tiver nada a dizer, manterei-me calado. Peço que compreendam.
Eu pretendia falar um pouco sobre cada um dos meus companheiros de piso, mas novamente o texto me traiu e saiu tudo trocado. Acontece muito. As coisas não saem como planejo. Mas eu tenho capacidade de improviso. Eu sobrevivo sempre. Anda faltando merecer. Mas confiem em mim que logo me boto nos trilhos. Primeiro o trabalho, que é o motivo que me trouxe aqui. Isso andava muito esquecido, mas não mais. Se me puxarem as orelhas, sinceramente não fico ressentido. Me fazem um favor.
E nesse ponto já nem sei mais sobre o que estou escrevendo, mas tentando recapitular gostaria de dizer que seria bom se todo mundo atentasse mais para a boa convivência. Enquanto isso eu vou tentar me centrar no meu trabalho, pois eu sou um muito bom historiador e quem duvida disso inevitavelmente cai com a cara enfiada na bosta.
Enfim, acho que é só mais um desabafo. Espero que ninguém se ofenda.


O pulso infinito de Zion

Fui ao concerto do Massive Attack ontem acompanhado de uma fã italiana totalmente empolgada por assistir ao vivo seu conjunto favorito. Ela passou a semana falando sobre como estava ansiosa e sobre como esperava ouvir suas canções favoritas. Confesso que conhecia algo do trabalho dos ingleses, mas não muito. Mas uma vez em terras européias estava (e continuo estando) decidido a experimentar coisas que sei que me serão vedadas quando retornar ao isolamento geográfico e cultural de Porto Alegre.

Redundância: o espetáculo foi espetacular.

A combinação de música pulsante e hipnótica com a apresentação de luzes extremamente elaborada e expressiva me remeteu ao clássico de ficção científica de William Gibson "Neuromancer" e ao pulso inifinito de Zion. Foram duas horas de transcendência. Se tivessem sido quatro eu teria assistido com a mesma satisfação. Segundo a especialista que me acompanhava o Massive Attack tocou apenas sucessos: "Angel", "Unfinished sympathy" (a "canzone preferita" de minha acompanhante), "Leave me" e uma muito bem elaborada versão da tocante "Teardrop". Gostava que tivessem executado "Live with me", mas não me queixo.

A banda é muito coesa e os intervalos entre as canções quase inexistentes. A variação de cantores, de instrumentos e de climas faz a audiência vivenciar uma sequência de sensações que vão desde apelos dançantes ao quase êxtase.

Junto a isso as imagens e mensagens que perpassam o painel luminoso tornam o evento singular. Pode parecer simples, mas a tradução das inúmeras frases apresentadas para o português - um cuidado que provavelmente se repetiu em outros países - ajuda a estreitar o vínculo entre artista e platéia, em especial apresentando mensagens relativas ao cotidiano luso.

Para mim a apresentação assumiu esse caráter de experimento, mostrando as possibilidades de se apostar numa apresentação dinâmica e contemporânea que funde música eletrônica, instrumentos tradicionais, som e luzes no intuito de tornar aquele um momento único. Sem dúvida alguma que valeu a pena assumir o risco inerente à qualquer novidade.


Contundente, não acham?

Sobre sempre ter dúvidas

Eu tenho estado muito insatisfeito com meu trabalho nos últimos tempos. Acho que há cerca de três anos...

Eu não tenho muita certeza sobre o andamento e a produtividade deste doutorado e muito menos sobre sua real importância para o mundo. Com frequência me pergunto se minha bolsa de pesquisa não é uma má distribuição de recursos públicos. Não sei se esta tese fará alguma diferença e o mais grave, não sei se ela é capaz de suplantar o meu próprio mestrado.

"Mas o cientista sempre tem dúvidas", acabou de dizer-me Bartosz, o estudante polonês que vive aqui em casa.

Eu nunca havia pensando sobre isso. Nunca havia avaliado a dúvida e a incerteza como componente necessário e indispensável ao meu trabalho. Há tantos anos me cobro por ter controle do meu trabalho (e de tudo dentro da minha vida) que esqueci que como cientista é minha obrigação duvidar das certezas. Talvez como ser humano seja essa também a minha tarefa.

Se tudo fosse certeza acho que não seria bom. Haveria muito menos opções e muito menos meios de mudar o que está errado.

Acho que isso não resolve os problemas da minha tese, mas por outro lado se não houvesse um problema inicial não haveria motivo para escrever uma tese.
Vou ficar duvidando das coisas nos próximos dias enquanto trabalho. Acho que vai ser muito saudável.


Esse passado foi mesmo do jeito que dizem que foi? Duvido muito.

 

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