Sismo

Balançou.
Eu vi, ninguém em contou. Estava acordado batendo papo na cozinha com o Rodrigo e o Bartozs quando o prédio balançou. Depois chegaram o João e o Hugo assustados.

Nível, 6.3 na escala Richter. Epicentro 100 km a oeste-sudoeste do Cabo São Vicente. Os andares dos prédios mais altos chegaram a balançar por 10 segundos.

Em 1755 um terremoto devastou Lisboa. Em 2009 um sismo deixou o pessoal cagado.
Quem disse que viver aqui é só festa tá muito enganado.

Notícias aqui:
http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=401041

Sem danos materiais aparentes na cidade, mas me pergunto se este prédio velho passa por outro desses sem se comprometer. Hora de mudar de casa?

Faz algum tempo eu pensava em escrever um bonito e divertido texto sobre a casa onde vivo aqui em Lisboa. Algo na linha "Albergue espanhol", pois vivo numa residência com mais treze pessoas. Ou vivia, pois algumas deixaram a casa.
Agora me parece sem sentido tentar reproduzir a empogação inicial das primeiras semanas. O tempo é um adversário implacável e como o seu progresso as gentilezas inicias escasseiam, os problemas multiplicam, os conflitos emergem e as relações desgastam. Ainda assim eu lembro de um tempo no qual eu me sentia acolhido por aquele clima de comunidade, de nova família que se forma. Aquele tempo ainda está lá e ainda estamos todos sorrindo em torno da mesa em nossos jantares coletivos.
As coisas estão diferentes agora. Eu já sei quais são as pessoas de quem sentirei mais saudade. Mas ainda gosto de todos. Não de todos os treze porque com alguns sequer falo e existem pelos menos quatro que fico dias sem ver. Isso não me incomoda. Podem até ser gente boa, mas não sinto sua ausência.
Acredito que o vídeo que a Lucía produziu após retornar para as Astúrias sintetizou o que eu pretendia expressar.
Aqui o vídeo. Que alguns podem achar piegas, mas esses já sabem que desejo que delicamente tomem nos olhinhos de seus cus.



Talvez quem mais devesse olhar esse vídeo somos nós habitantes da republiqueta de Adília. Acho que temos de lembrar dos bons tempos que vivemos e do quanto fomos sinceros naqueles primeiros tempos. Eu sei que muitos andam sobrecarregados emocionalmente, fisicamente, mas acho que todos podemos botar o dedinho na moleira e repensar algumas de nossas ações.
Eu estou muito cansado e muito triste. Estou frustrado comigo mesmo. Não dei a atenção que meu trabalho merecia e necessitava. Me frustrei como sempre faço no campo emocional porque sigo sendo o mesmo bosta de sempre. E o que vou fazer amanhã? Vou levantar e resolver os problemas, um por um como sempre, do jeitinho que o meu pai tentou me ensinar a vida toda. é pra isso que eu sirvo. Sobreviver é a minha regra básica.
Mas o comandante Adama me ensinou que sobreviver não é suficiente. Que é necessário merecer.
Eu sou o mais velho aqui, vizinhos, e garanto que passei por mais aperto do que vocês. É hora de fazer merecer nossa sobrevivência. Comecem desacelerando, cuidando das coisas básicas. Precisamos cudiar da nossa casa, fazer o consumo de eletricidade baixar. Precisamos estudar pros exames ou trabalhar com maior cuidado em nossos empregos. Temos de ser mais delicados uns com os outros. Passamos tempos tempestuosos, mas a bonança não tarda agora. Melhor se aproveitarmos os bons tempos em conjunto.
Eu preciso ficar um tempo em silêncio. Cada momento em que eu estiver falando será mau sinal. Não se ressintam do meu silêncio, vocês podem sempre falar comigo. Mas se eu não tiver nada a dizer, manterei-me calado. Peço que compreendam.
Eu pretendia falar um pouco sobre cada um dos meus companheiros de piso, mas novamente o texto me traiu e saiu tudo trocado. Acontece muito. As coisas não saem como planejo. Mas eu tenho capacidade de improviso. Eu sobrevivo sempre. Anda faltando merecer. Mas confiem em mim que logo me boto nos trilhos. Primeiro o trabalho, que é o motivo que me trouxe aqui. Isso andava muito esquecido, mas não mais. Se me puxarem as orelhas, sincermente não fico ressentido. Me fazem um favor.
E nesse ponto já nem mais sobre o que estou escrevendo, mas tentando recapitular gostaria de dizer que seria bom se todo mundo atentasse mais para a boa convivência. Enquanto isso eu vou tentar me centrar no meu trabalho, pois eu sou um muito bom historiador e quem duvida disso inevitavelmente cai com a cara enfiada na bosta.
Enfim, acho que é só mais um desabafo. Espero que ninguém se ofenda.



O pulso infinito de Zion

Fui ao concerto do Massive Attack ontem acompanhado de uma fã italiana totalmente empolgada por assistir ao vivo seu conjunto favorito. Ela passou a semana falando sobre como estava ansiosa e sobre como esperava ouvir suas canções favoritas. Confesso que conhecia algo do trabalho dos ingleses, mas não muito. Mas uma vez em terras européias estava (e continuo estando) decidido a experimentar coisas que sei que me serão vedadas quando retornar ao isolamento geográfico e cultural de Porto Alegre.

Redundância: o espetáculo foi espetacular.

A combinação de música pulsante e hipnótica com a apresentação de luzes extremamente elaborada e expressiva me remeteu ao clássico de ficção científica de William Gibson "Neuromancer" e ao pulso inifinito de Zion. Foram duas horas de transcendência. Se tivessem sido quatro eu teria assistido com a mesma satisfação. Segundo a especialista que me acompanhava o Massive Attack tocou apenas sucessos: "Angel", "Unfinished sympathy" (a "cancione preferita" de minha acompanhante), "Leave me" e uma muito bem elaborada versão da tocante "Teardrop". Gostava que tivessem executado "Live with me", mas não me queixo.

A banda é muito coesa e os intervalos entre as canções quase inexistentes. A variação de cantores, de instrumentos e de climas faz a audiência vivenciar uma sequência de sensações que vão desde apelos dançantes ao quase êxtase.

Junto a isso as imagens e mensagens que perpassam o painel luminoso tornam o evento singular. Pode parecer simples, mas a tradução das inúmeras frases apresentadas para o português - um cuidado que provavelmente se repetiu em outros países - ajuda a estreitar o vínculo entre artista e platéia, em especial apresentando mensagens relativas ao cotidiano luso.

Para mim a apresentação assumiu esse caráter de experimento, mostrando as possibilidades de se apostar numa apresentação dinâmica e contemporânea que funde música eletrônica, instrumentos tradicionais, som e luzes no intuito de tornar aquele um momento único. Sem dúvida alguma que valeu a pena assumir o risco inerente à qualquer novidade.


Contundente, não acham?

Sobre sempre ter dúvidas

Eu tenho estado muito insatisfeito com meu trabalho nos últimos tempos. Acho que há cerca de três anos...

Eu não tenho muita certeza sobre o andamento e a produtividade deste doutorado e muito menos sobre sua real importância para o mundo. Com frequência me pergunto se minha bolsa de pesquisa não é uma má distribuição de recursos públicos. Não sei se esta tese fará alguma diferença e o mais grave, não sei se ela é capaz de suplantar o meu próprio mestrado.

"Mas o cientista sempre tem dúvidas", acabou de dizer-me Bartosz, o estudante polonês que vive aqui em casa.

Eu nunca havia pensando sobre isso. Nunca havia avaliado a dúvida e a incerteza como componente necessário e indispensável ao meu trabalho. Há tantos anos me cobro por ter controle do meu trabalho (e de tudo dentro da minha vida) que esqueci que como cientista é minha obrigação duvidar das certezas. Talvez como ser humano seja essa também a minha tarefa.

Se tudo fosse certeza acho que não seria bom. Haveria muito menos opções e muito menos meios de mudar o que está errado.

Acho que isso não resolve os problemas da minha tese, mas por outro lado se não houvesse um problema inicial não haveria motivo para escrever uma tese.
Vou ficar duvidando das coisas nos próximos dias enquanto trabalho. Acho que vai ser muito saudável.


Esse passado foi mesmo do jeito que dizem que foi? Duvido muito.

Era de se esperar

Já é quase oficial.
Não tenho o menor interesse em voltar ao Brasil.
Somente minha obrigações contratuais me forçam ao retorno.

Devia ter pedido uma bolsa com mais tempo...




Depois de tanto trabalho pra conquistar Portugal por que eu quereria voltar?

Rápida constatação

Eu desconfio que me comunico melhor com o mundo por meio desse blog e do meu Flickr do que pessoalmente.
Existem menos mal entendidos e me faço mais claro aqui. Não deveria ser tão difícil assim conviver e conversar com as pessoas. Afinal, o que me angustia tanto nas relações humanas?

Uma constatação simples que conduz a novo questionamento... Isso nunca tem fim?


Essa foto não tem nada a ver com o texto. Ela foi colocada aqui para testar meu potencial de comunicação via fotografia.

Hostia, que putada!

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida." - Vinícius de Morais
Eu imagino que estou a meter os pés pelas mãos novamente. Decerto deveria terminar de escrever o outro texto que estou produzindo e publicá-lo antes deste, mas já é de praxe fazer tudo ao contrário do que planejo.

É bem simples. Lucía nos mostrava algumas de suas fotos no Facebook, incluindo algumas fotos da sua infância. Ao Rui chamou atenção uma foto dela em criança na qual, segundo ele, assemelhava-se à princesa Letícia de Espanha. Não deu outra, logo ele e eu começamos a comentar com todos que vivíamos com uma integrante da real família espanhola: Lucía, Infanta de Astúrias. O apelido pegou. Acho mesmo que ela curtiu muito.

Hoje Lucía pegou um vôo direto de Lisboa a Madri para voltar para a Espanha deixando saudades em todos que continuam a morar na nossa casa. Eu convivi com ela desde que aqui cheguei, cerca de um mês e meio. Tive sorte e agradeço por isso. Ela é uma pessoa muito rica, muito iluminada. Para mim personifica a alegria. Vou tentar lembrar sempre disso, da alegria e de como é possível ser alegre sempre. Hay que ser alegre siempre! No permitas que la alegria desaparezca de nuestras vidas, de nuestras calles, de nuestras escuelas!

Lucía e eu nos tratávamos (e ainda tratamos! Por Dios, nadie ha murrido!!) de “hermano mayor” e “hermancita”. Me afeiçoei a esta figurinha! Ela é por demais divertida! Impossível não simpatizar com ela. E dado que amo demais a minha irmã de sangue não vi outro modo que não considerar a Infanta de Asturias outra irmãzinha. Pode parecer confuso, mas é o meu jeito de fazer um grande elogio. Às duas!

Lucía sempre me supreendia com suas expressões idiomáticas hispânicas. Em meio aos seus “conõs”, “hostias”, “la virgen” e “joder” sempre se ouviam as minha risadas. A melhor de todas essas “putadas” foi quando resolvi um problema trivial, mas que parecia angustiar demais a pequena princesa. Admirada ela exclamou “Hostia, que putada! Por eso es el puto jefe!!”

El puto jefe...
O equivalente a ser um cara “fudido na base”. Taí... gostei.
Gostei até mais do que quando le ragazze italiane me alcunharam “l’imperatore”. Afinal acho que sou muito mais ao modo “puto jefe” que “imperatore”. Então agora éramos a Infanta e "el puto jefe". Tem a ver. Mais ainda se consideramos nosso bom gosto em usar chapéus.

No aeroporto eu percebi as caras tristes de todos e tomei uma decisão, que talvez tenha sido bastante idiota. Com tanta gente abatida pela separação decidi que seria melhor se oferecesse algum apoio. Hmm... Deveria eu também ter cedido. Não me faria mal derramar umas lágrimas. Mas eu tenho uns bloqueios. Coisa pra discutir outra hora. De todo o modo separamo-nos. Rui de longe é quem mais sentiu o golpe, afinal ele e a Infanta estavam envolvidos emocionalmente. Uma história bonita, mas que prefiro não contar. É a história deles. A minha é a história de como ganhei uma “hermancita”. E uma “hermancita” que me ensinou muito sobre cozinhar, sobre música, sobre divertir-se, sobre conduzir um carro auxiliado por um GPS temperamental e potencialmente homicida. Mas, sobretudo, sobre ser alegre.

Acho que a semana que se inicia vai ser pesada.
Começou a chover em Lisboa e a casa está mais silenciosa. Não escuto aquela risada tão gostosa quando passo pelo quarto 4 no corredor. Meu instinto me diz que as coisas vão mudar. No que tange à minha pessoa eu pretendo que elas mudem pra melhor. Vou me esforçar por isso. Pra ser mais alegre.
Depois de tudo o que minha nova irmã me ensinou não seria respeitoso com ela se eu não me decidisse a ser alegre.


Lucía e su hermano mayor, el puto jefe.

 

©2009 I don't need no jewels in my crown | by TNB